" Is there anybody going to listen to my story? All about the girl who came to stay. She is the kind of girl you want so much that makes you sorry. Still you don't regret a single day.Oh, girl!" (Girl, The Beatles)



quarta-feira, 21 de abril de 2010

' CHAPTER 05 - A DAY IN THE LIFE






"Woke up, fell out of bed, dragged a comb across my head. Found my way downstairs and drank a cup, and looking up I noticed I was late."

(A Day in the Life, The Beatles)



Qual era mesmo o sentido de ir à escola? Ser alguém com muito dinheiro nunca interessou Katherine realmente. A escola era mais uma passarela de vidas fúteis e artificiais idolatradas pelos trouxas e esnobadas por aqueles que muito se importam com outras coisas que não fossem a vida social e aparência: os outros trouxas.
Kath estava deitada na cama folheando o último anuário. Lá estava Yancy, sempre perfeita, com mais atividades extracurriculares possíveis; Bailey no palco do auditório, dramatizando o poema “Stop All The Clocks”, de W. H. Auden; Daniel, Peter e Mark impecavelmente vestidos com o uniforme de pólo sobre um cavalo negro; e Richard vencendo o campeonato de xadrez pela décima quarta vez. E ela, em uma página inteira, por simplesmente existir. Fazia algum sentido? A garota fechou o livro e junto com ele, seus olhos.
Katherine sentia-se constrangida sempre que pensava em Daniel. Era estranho como ela não sentiu vergonha alguma quando se viram, mas quando pensava nele sentia milhões de borboletas no estômago. Ela tentou lembrar-se do que aconteceu exatamente naquela noite, mas não conseguiu. Ela dançou no balcão com Yancy e Mark, jogando vinho tinto barato nos amigos lá embaixo, depois alguma coisa sobre o nacho com queijo ter acabado, logo em seguida as costas de Dan salpicadas de sardas nos ombros, o gosto de álcool e chocolate em uma mistura eletrizante e seu sutiã vermelho no chão do quarto dos Worren. Então ela havia mesmo mostrado os peitos para ele. Ele se lembraria como eles são ou estaria muito bêbado para reparar? Nada tinha acontecido de tão grave. Yancy já havia nadado pelada na piscina em uma festa, e todos os caras insistiram em lhe fazer companhia.
Pensar em Daniel não era muito bom à essa altura. Era uma tortura. Mas ela não conseguia parar. Por uma fração de segundo ela chegou a pensar que... E então riu de sua própria bobagem. Ela não estava apaixonada por Daniel, claro que não. Ela era praticante do desapego. O amor é para os velhos, os poetas, os românticos, os fracos e dependentes. Não para ela.
No dia seguinte, Kath não queria abrir os olhos. Era tão bom ficar dentro do pijama quentinho, tentando lembrar do que havia sonhado, que ela gostaria de ficar assim pra sempre. Mas era o primeiro dia de aula ela precisava estar pronta em poucos minutos. Minutos? Deus, ela devia ter perdido bons dez minutos apenas tentando decidir o que fazer de sua vida.
Levantou-se abruptamente e se arrumou em menos tempo do que gostaria. Não era preciso muito pra ir à escola. Os uniformes passados e alinhados no cabide, os novos óculos Gucci de aros azul-marinho combinando com o blazer e sapatos boneca em verniz. Ela ouviu a buzina do carro de Peter lá embaixo algum tempo depois e desceu correndo. Gritou um breve 'Tchau!' para todos na cozinha e saiu.
- Desculpa, gente. - ofegou ela ao entrar no carro.
Pete beijou-a bem perto da boca e disse:
- Tudo bem. Eu sempre te perdôo.- e piscou.
- Eu não. – reclamou Yan do banco da frente. - Vaca. Acha que a gente fica por sua conta?
Katherine mostrou a língua para Yancy, e olhou para Peter. Eles eram exatamente iguais. Peter era um ano e meio mais velho, o que fazia as pessoas pensarem que eram irmãos gêmeos. Yancy era Pete de saias. O cabelo muito loiro platinado, os olhos muito azuis e a boca fina... a semelhança era assustadora. Yancy falava alguma coisa que Katherine não ouvia. Ela por sua vez, observava Peter imitando a irmã divertidamente. Kath riu e jogou os cabelos para trás. Deitou sua cabeça no encosto da poltrona e fechou os olhos ainda fingindo que escutava Yancy. Ela falava algo sobre a nova coleção da Banana Republic, ou sei lá o quê. Peter mordeu o ombro de Katherine ao mesmo tempo que ela lhe dava um beliscão nas costelas. Ambos riram até perder o fôlego, quando Yancy virou-se e disse:
- Vocês nunca me escutam, seus bastardos!
E não ouviam mesmo. Não tinha tempo ruim com Pete, ele sempre foi o bobo da corte de Katherine, seu amigo mais idiota, e o único que conseguiu fazê-la rir depois que Thomas deu um ataque de raiva e resolveu quebrar o primeiro LP dos Beatles que ela ganhou. Ela poderia passar a vida ao lado dele sem fazer nada, e não se importaria.
Yancy estacionou e Kath viu que eles haviam chegado. A torre do relógio da escola estava à dois minuto das oito da manhã, que era quando as guaritas fechavam. Os três correram rindo, desesperados, até chegar nos portões gigantescos e passar as digitais pelas roletas. A John Adams nunca foi o melhor exemplo de tolerância.
Pete despediu-se delas e subiu para a sala, arrancando suspiros das meninas nos corredores. Não havia um garoto mais desejado na escola que ele – talvez Daniel ou Mark, mas ele era o único que se importava- e isso deixava Katherine e Bailey em uma situação o tanto quanto embaraçosa, por serem as melhores amigas dele. Bailey fez biquinho quando viu que Pete subira sem falar com ela. Com a camisa amassada, as mangas dobradas e os dois primeiros botões abertos, ela chegou antes que o sino tocasse. Era linda, com o jeito rebelde e displicente, sem ligar pra o que pensavam sobre ela. O cabelo azul contrastava de um jeito louco com a pele muito branca e o rosto delicado.
- Primeiro período de Biologia, vamos. – avisou Yancy depois de olhar os horários – Odeio começar o ano dissecando animais.
Elas entraram na sala rindo e se sentaram nos mesmos lugares como de costume. Daniel entrou ofegante na sala, olhou o relógio no pulso e sorriu para Katherine. Sentou-se do lado dela e ela pôde ver os olhares das outras meninas fuzilando-a.
- Não consigo mais acordar cedo, é uma merda. – disse ele. Daniel era da da mesma turma de Pete e Mark, mas reprovou em Biologia. Festas demais? Álcool demais? Garotas demais? Nós entendemos, querido.
Katherine riu e limpou a gola da camisa dele, suja do que parecia molho.
- Eu sinto falta da escola, sério. O pior é que eu gosto desse lugar, apesar de tudo.
Daniel balançou a cabeça:
Katherine abriu a boca para replicar quando o Prof. Jullian entrou. Eles se viraram para frente. Imediatamente ela sentiu a pequena bolsa de mão vibrar. Era uma mensagem de Yancy:

Ele dissecou dois sapos e os calçou? Que sapatos são esses?

Katherine riu e olhou para trás. Yancy olhava para o professor com cara de repugnância e Bailey debruçava-se na carteira de mogno para rir. Ela amava aquelas vacas. Katherine mirou a lousa e pensou que aquela seria uma aula longa.

terça-feira, 30 de março de 2010

' CHAPTER 04 - THE NIGHT BEFORE



"Last night is a night I will remember you by.When I think of things you did, it makes me want to cry." (The Night Before, The Beatles)


O sol batia em seus olhos fechados, que ela se recusava terminantemente a abrir. Onde estava mesmo? Claro, casa de Yancy. Yancy? Casa de Yancy? Kath levantou-se abruptamente e sacudiu Yan ao seu lado. Já era tarde: o relógio na parede marcava onze e meia da manhã.
- Yancy! - a amiga se mexeu na cama de um lado para outro e puxou as cobertas até a cabeça – Yancy, vadia! Acorda!
A garota abriu os olhos lentamente e olhou para Kath sonolenta.
- O que você quer? - bocejou ela – Ainda é de madrugada.
-De madrugada? - Yancy voltara a fechar os olhos e seu queixo caiu pesadamente no travesseiro – Yancy!
Yan sentou-se de repente na cama, olhou para Katherine e disse:
- Que porra, Mayden. Eu quero dormir! O que você quer?
- Eu disse à minha mãe que voltaria antes do almoço, amor.- disse Kath desesperada. - Desculpe por te acordar, mas eu preciso realmente ir.
-Ok. - Yancy jogou a cabeça para trás e cerrou os dentes pensando. Foi com uma expressão suplicante que implorou – Você se importa em ir com o Pete? Eu estou cagando com dor de cabeça.
Katherine beijou a amiga no rosto e se levantou apressada.
- Tudo bem – disse ela – desculpe por te acordar.
Yan não respondeu; deitou-se pesadamente na cama e voltou a dormir. Kath sorriu, pegou sua bolsa e saiu a procura de Pete.
O irmão mais velho de Yancy, sentado na mesa da cozinha, vestia uma cueca samba-canção de cor roxa, salpicada de estrelinhas douradas. Katherine riu e o abraçou.
-Pete, - cochichou ela com a cara mais pidona que conseguiu -você pode levar a ruivinha pra casa?
Ele deu um beliscão em Kath e se levantou.
- Só se você disser que eu sou gostoso. - disse.
Katherine estalou um tapa na bunda de Pete e fez cara de tarada.
- Você é o mais gostoso, Sullivan.
Ele fechou os olhos saboreando as palavras dela:
- A hipocrisia está de nome novo, Mayden? – ele a abraçou e beijou-lhe a curva do pescoço – Vou me vestir e já te levo.
- Ok.
O caminho pra casa foi bem divertido. Na verdade, tudo era divertido com Pete. Ele sempre conseguia fazê-la rir, pensou Katherine. Ela olhou para Peter ao volante. Ele tamborilava os dedos junto com a bateria de Coldplay, que tocava no carro. Kath não mentiu. Ele era gostoso; muito gostoso. No dedão da mão esquerda, usava sempre um anel com uma cobra enroscada, que tinha pequenos rubis incrustados nos olhos. Presente de aniversário de Yancy, lembrou-se ela. Quando coçava a nuca com o dedão, ele conseguia ser completamente sexy.
- Eu não tenho taxímetro, mas isso vai custar mais que dinheiro. - brincou ele quando chegaram.
-Ainda bem, eu não tenho grana. - disse Kath e com essa beijou-lhe o rosto.- Obrigada, amor.
Katherine saiu do carro e esperou Peter ir embora para entrar em casa. Sorte a dela. Não havia ninguém em casa. Tinha se esquecido que sábado era dia-de-levar-Lisa-ao-shopping. Bem, provavelmente Tom estaria no quarto assistindo Star Wars pela trocentésima vez. Idiota, pensou ela.
Kath abriu a geladeira, pegou uma latinha de Coca e subiu as escadas. Passou pelo quarto do irmão e gritou que havia chegado. Thomas gritou alguma coisa em resposta, que Katherine não esperou pra ouvir. Quando entrou no quarto, assustou-se com alguém sentado em sua cama. Em circunstância alguma ela protestaria sobre alguém tão lindo como Daniel Worren sentado em sua cama, mas quando não se dorme direito e acorda na hora do almoço com uma ressaca insuportável, poucas coisas são agradáveis.
Dan não tinha percebido que ela estava ali. Ela fez um barulho estranho com a garganta como para dizer que tinha chegado. Ele virou-se e deixou cair alguma coisa no chão, que Kath não pôde ver.
- Ei, Danny. - Kath foi até ele e o abraçou.
- Desculpe por entrar no seu quarto assim. É que seu irmão me disse que se você não estivesse aqui, eu poderia te esperar... - começou ele.
-Tudo bem. Eu não me importo. - ela se jogou na cama e ficou olhando para o teto. – Sente-se aí. Fique à vontade. - e piscou pra ele.
- Na verdade eu precisava ir agora. - Kath olhou para ele com a cara de súplica a qual ninguém resistia. - E não faz assim, eu só vim te trazer uma coisa. - E entregou a ela uma caixinha pequena. Katherine se sentou e abriu a caixa. Enrubesceu furiosamente. Esse era o problema de ser ruiva. Não há como se ter vergonha imperceptivelmente. Havia um sutiã vermelho com pequenas flores azuis, um cd dos Beatles e a identidade falsa que carregava.
- Eu esqueci de te entregar ontem.Você...
-Esqueci na sua casa na festa de despedida do ano passado. - completou ela sem levantar a cabeça.
Aquela noite foi tão constrangedora como a vez em que ela, Bay e Yan ficaram bêbadas e correram peladas pelo jardim dos Sullivan. Ok. Isso foi uma hipérbole. Nada seria tão constrangedor como aquilo. Mas na festa de despedida do último ano ela meio que extrapolou na bebida outra vez e perdeu as estribeiras. Nada importaria se ela e Dan não tivessem terminado a noite com uns amassos nada decentes no quarto dos Worren pais. Era a primeira vez que eles se viam sozinhos desde que havia acontecido e ela não sabia o que dizer.
- Eu já vou indo. - e ela nunca havia desejado tão profundamente que ele dissesse isso. Ela se levantou e por algum motivo descobriu que os olhos dele estavam muito verdes, e ela já não conseguiria olhá-los.
- Ok. E...obrigada por trazer.- e fez um gesto com a cabeça para a caixa em cima da cama.
Dan beijou-a no rosto com carinho e desceu as escadas. Kath pôde ouvir quando ele chegou no penúltimo degrau que rangia e logo depois quando ele saiu e bateu a porta atrás de si. Ela ainda estava de pé. Entorpecida. Ela era uma idiota. A partir de hoje, ela pararia de beber.
Claro, querida. Nós sabemos que sim.
Tirou os sapatos, jogou embaixo da cama e ligou a banheira. Deitou-se na cama e esperou que enchesse. Banho quente, moletom, cama, e enfim, o nirvana.

terça-feira, 2 de março de 2010

' CHAPTER 03 - Twist and Shout!


"

"Well, shake it up, baby now. Twist and shout. Come on come on come on come on, baby now. Come on and work it on out."
(Twist and Shout, The Beatles)


Na sexta-feira Yancy combinou que buscaria Katherine em casa para a festa. Faltava menos de meia hora para que ela chegasse e Katherine não tinha idéia do que vestiria. Optou por um tomara-que-caia preto Oscar de la Renta, um jeans Banana Republic, botas de couro pretas e um casaco. Achou que com o casaco talvez sentisse calor, e resolveu tirá-lo. Tudo bem se sentisse frio. Se olhou no espelho e viu que os cachos caíam-lhe ao ombro e seu contraste com o preto da blusa era bem legal.

Katherine ouviu uma buzina alta lá fora. Pegou o lápis preto, o rímel e o gloss, colocou-os dentro da bolsa e saiu correndo. Seus pais não estavam e ela deixou um bilhete na geladeira. Outra vez Yancy buzinou. Paciência, amor; pensou Kath. Trancou a porta da frente e correu para o carro. Sentou-se ofegante no banco de trás, ao lado de Pete.

- Eu não saio com você assim!

- Por que? - indagou Katherine sem saber o que dizer.

- Vestida como uma biscate! - Yancy não tinha uma gota de sensibilidade no sangue? Será que era difícil ser gentil ao menos uma vez?

- Você está linda, Kath . - disse Pete em defesa de Kath. - Você é quem está parecendo uma afegã, Yan. Ninguém te disse que você não precisa usar burca na Inglaterra?

Yancy estava coberta do pescoço aos joelhos por um casaco rosa com gigantescos botões.

- Obrigada, Pete.- agradeceu Katherine. - E o seu irmão está certo, Yan. É melhor você tirar o casaco.

- É um Prada, não vou tirar. – ela deu de ombros e desconversou rapidamente - A Bay disse que uma prima do Danny chegou ontem dos Estados Unidos, então eu suponho que ela também estará lá.

- Que estranho. - disse Pete.

- Estranho por quê? - perguntou Kath.

- O Daniel comentou que ela viria antes, mas depois ela desistiu.

- Que indelicadeza, aparecer sem avisar. Os americanos conseguem ser tão desprezíveis!

Um comentário típico de Yancy: como os americanos são sujos, grossos, indelicados e completamente deploráveis. O que não era assim uma inverdade tão grande.

Katherine virou-se para Pete e perguntou num sussurro:

- Por que ela sempre dirige, mesmo quando é seu o carro?

- Porque se alguma coisa acontecer , a culpa é dela mesma, então ela não vai odiar ninguém por isso.- riu-se Peter.

Chegaram à casa de Dan, e Yancy estacionou. Ao sair despiu o casaco e o jogou no banco da frente do carro. Nem a amiga nem o irmão fizeram nenhum comentário. Peter tocou a campainha e Katherine se surpreendeu ao ver que Dan tinha contratado dançarinas com trajes patriotamente americanos.

- Rose, eu disse que não precisava abrir a porta. - um Daniel completamente desconsertado apareceu atrás da garota que usava uma mini saia de marinheiro e um sutiã bordado com paetês e lantejoulas, formando a bandeira americana. - Gente, essa é a minha prima Rose.

Katherine arregalou os olhos e tentou não olhar para Yancy que ainda tinha no rosto uma expressão de nojo.

- Boa noite. - adiantou-se Peter sem tirar os olhos do decote de Rose. - Meu nome é Peter e essas são Yancy; minha irmã, e Katherine, nossa amiga.

Katherine murmurou um “Muito prazer” sem prestar muita atenção no que dizia. Rose era, dizendo de forma educada, uma puta total. Não era à toa que Kath pensou que ela era dançarina de balcão ou coisa parecida.

Kath foi até Daniel e desejou um Feliz Aniversário. Ele abraçou-a e cochichou ao seu ouvido:

- Desculpe por isso.

Katherine sorriu e respondeu:

- Não faz mal.

Dentro da casa , a batida dos Strokes fazia as janelas tremerem. Na mesa central havia montes de salgadinhos, muito refrigerante e um tonel de cerveja extremamente gelada. Bailey, Mark e Richard chegaram pouco depois e não demorou muito para que eles estivessem se divertindo.

Uma música lenta embalou a sala e todos se sentaram. Kath não pôde deixar de notar que Rose se esfregava nos garotos toda vez que levantava-se para pegar mais cerveja - o que acontecia com alarmante freqüência - e estava sentada de forma que suas pernas ficavam quase totalmente em cima das pernas de Dan, que de modo algum se incomodava.

Garotos são todos uns vagabundos.

Yancy, é claro, não perdeu a oportunidade de fazer um comentário maldoso:

- Será que alguém se voluntaria a pedir que ela pare de agir como uma prostituta barata?- murmurou ela ao ouvido de Bailey, alto o suficiente para que Kath escutasse.

- Nenhum dos meninos se incomoda a esse ponto, sabe. - disse Bailey observando como a priminha-não-tão-inocente de Daniel conseguia prender a atenção de todos os garotos, apenas cruzando e descruzando as pernas a cada minuto.

Katherine olhou para a expressão de asco que Yancy tinha no rosto ao olhar para Rose e provocou-a:

- Yan, será que você não está com ciúmes porque pela primeira vez na vida o Richard encontrou alguém que o fizesse desviar os olhos de você?

Parecia que Yancy havia sido esbofeteada. Katherine sabia que esse não era o motivo – afinal ela também estava prestes a enfiar uma lança no pescoço de Rose – mas estava louca para ver a reação da amiga. Yan olhou para as outras duas, em sinal de desafio e levantou-se abruptamente.

- Quem quer mais cerveja? - perguntou ela em voz alta. Ninguém pareceu ouvi-la. - Eu vou trazer mais cerveja, gente. Alguém pode me ajudar? - perguntou ela ainda mais alto.

- Desculpe, Yan. Agora não. - respondeu Pete com os olhos pregados em Rose.

- Richard? - arriscou ela em meio ao desespero. Ela lançou seu inimitável sorriso e jogou os cabelos para trás.

O garoto acordou de seu devaneio e respondeu:

- Claro, claro, Yancy. - e ao passar por Rose -Com licença.

Yancy virou-se para as amigas com um olhar triunfante e seguiu com Richard. Foi um momento estranho. Um silêncio mórbido tomou conta do lugar. Provavelmente não havia mais o que se dizer ou discutir. Repentinamente, Rose olhou para Katherine e comentou:

- Eu gostei do seu corpete. Ficaria incrível em mim. - disse ela com um gesto em direção à roupa de Kath. - Eu tenho um colo incrível, entende.

Todos ficaram surpresos com a modéstia de Rose e Bailey soltou uma risada estranha, que conseguiu disfarçar com um espirro.

- Obrigada, sua blusa também é...ahn...muito legal. - agradeceu Katherine sem muita certeza do que dizer sobre a roupa da garota, que deu de ombros e continuou:

- Deve ser horrível ser ruiva. - as sobrancelhas de Kath se ergueram. - Você deve se sentir um semáforo ambulante. Além disso, seu cabelo comprido te deixa meio que desproporcional.

Ok, Rose podia ser uma vagabunda de quinta categoria, ela estava mesmo chapada o suficiente pra que alguém a comesse sem ela perceber; mas se tinha lucidez o bastante para fazer um comentário de tal natureza, Katherine tinha todo o direito de se sentir ofendida. Ela sempre gostara da cor de seu cabelo.

- Você enlouqueceu! - gritou Bailey – O cabelo da Kath é lindo. Eu sempre quis ser como ela!

Rose riu maldosamente e disse:

- Qualquer um com o seu cabelo morreria para ser diferente. Até mesmo como ela.

- Espera aí. - Peter levantou-se de imediato. Ninguém ofendia Bailey na sua frente, esse era um direito exclusivo dele. - Eu acho melhor você parar.

Rose levantou-se e olhou para Daniel esperando que ele dissesse alguma coisa. E ele disse, não a favor dela, é claro.

- Cale a boca, Rose. - Kath achou que ele não conseguiria pronunciar uma palavra corretamente, visto seu estado de sobriedade. - A Kath é linda. E ninguém mexe com a Bay na nossa frente. Eu acho melhor você subir.

A garota, encolerizada, andou furiosamente até as escadas. Subitamente, Yancy entra pela porta com uma bandeja com copos de papel cheios de vodka – ao que parece ela e Richard haviam visitado o bar dos Worren – e esbarrou em Rose.

- Cuidado, vadia. - gritou Rose – Se você tivesse derramado algo nos meus sapatos... – mas a frase se perdeu no ar.

Como se alguém falasse assim com Yancy Sullivan; que entregou a bandeja a Richard, pegou um copo de papel e derramou seu conteúdo no sapato de Rose de modo teatral; a qual berrou para Daniel:

- Você não vai fazer nada?

Dan virou em um gole a cerveja que ainda restava na garrafa, deu de ombros e disse:

- Ops.

Foi então que Katherine percebeu que estava boquiaberta. Olhou ao seu redor e viu que Yancy estava falsamente perturbada. Bailey e Peter riam descontroladamente, Daniel tinha uma expressão indecifrável e Mark e Richard estavam visivelmente desconcertados. Kath sentiu-se confiante e sorriu presunçosamente para Rose, que subiu as escadas cuspindo palavrões.

O resto da noite foi perfeito. Os amigos se divertiram até que não tinham mais forças para se mexer, e então deitaram-se no chão, conversando e rindo à toa. Quando a última lata de refrigerante foi esvaziada, já eram sete da manhã e Kath teve o bom senso de dizer que era hora de irem embora.

Um por um, cambalearam para fora, abraçados e cantando alto. Katherine seguiu Yancy e Peter até o carro e jogou-se no banco de trás. Pela primeira vez, ela vira Yan mais chapada que Pete, que assumiu o volante.

Kath estava exausta, mas não fechou os olhos. Olhava para o céu de forma intrigante, como se assistisse um programa levemente interessante. Gostava de pensar no dia que passou antes de adormecer. Quando criança, sentava no colo da mãe e contava como tinha sido seu dia. Já não era assim, é claro, mas a garota adquiriu o hábito de refletir antes de se deitar, ainda que sozinha.

Quando chegaram à casa dos Sullivan, Katherine não se trocou. Jogou-se na cama e apagou do jeito que estava.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

' CHAPTER 02 - With a Little Help from my Friends!





“ I get by with a little help from my friends. I get high with a little help from my friends. I’m gonna try with a little help from my friends.”

(With a Little Help from my Friends, The Beatles)




- A Bailey está inventando o rímel? Cadê ela?- perguntava Yancy pela milésima vez.
- Calma, Yan.- disse Kath. - Ela já deve estar descendo.
- Foi isso que você disse a dez minutos atrás!
- Olha aqui...- começou a garota a falar, que foi interrompida por uma Bailey completamente desesperada.
- Eu não demorei muito, demorei?- ofegou ela.
- Não, Bay.- respondeu Katherine- Só o suficiente pra deixar a Yancy bem nervosa.
- Ah, não foi muito.- ironizou Bailey.
Yancy falou impaciente:
- Ótimo, Bay. È melhor nós irmos agora, Kath, os garotos devem estar desesperados.
- Ok. Vou pedir ao meu pai que leve a gente.- disse Katherine subindo as escadas.
A garota correu pelos quartos a procura dos pais e não encontrou ninguém. Ina-porra-creditável; pensou ela. Eles nunca estavam por perto quando realmente precisava deles. Olhou para os dois lados pensando no que faria. Um táxi demoraria muito. Não acreditou no que estava prestes a fazer, mas situações desesperadoras exigem medidas desesperadas. Disse um palavrão e bateu duas vezes no quarto de Thomas. O garoto abriu a porta e perguntou:
- O que você quer?
Há muito tempo não entrava no quarto do irmão, mas continuava como sempre. Milimetricamente organizado. O perfeccionismo de Tommy era o que mais irritava Katherine.
- O que você quer para levar a gente no Beatles' Dinner?- suplicou ela.
Os olhos do garotos se escancararam e ele disse:
- Levar vocês? – e riu estrondosamente.
- Por favor, Thomas! Eu nunca te peço nada, merda. - implorou a garota.
Katherine cruzou os dedos e fitou o irmão com o máximo de submissão que conseguiu.
- Louça lavada por uma semana. -disse ele pegando as chaves do carro.- E aproveite a minha solidariedade.
Katherine precisou resistir ao impulso de abraçar o irmão. Mas soltou um gritinho de excitação e disse:
- Eu sabia que você não poderia ser tão mau, Tommy.
O garoto murmurou alguma coisa e os dois desceram as escadas correndo. As três meninas entraram no carro e Thomas pisou fundo. Chegando lá, Yancy ainda se maquiava com o espelhinho na mão. Thomas impacientou-se e falou:
- Eu pensei que você quisesse chegar rápido, Yancy.
Yan, procurando o curvex na bolsa, disse:
- Tommy, não tente entender as mulheres antes de pegar uma pela primeira vez.
Thomas enrubesceu e falou entre os dentes:
- Vocês têm três exatos segundos pra sair do meu carro. Um...
Antes mesmo do dois as meninas já estavam do lado de fora. Antes, porém, de sair do carro, Katherine disse maternalmente ao irmão:
- Não durma tarde e desligue a TV.
O carro saiu cantando os pneus no asfalto e Bailey falou:
- Vamos entrar. Os garotos vão nos esfaquear.
A três entraram e parecia que Katherine estava de volta ao seu quarto. A garota sentiu-se completamente confortável. Avistaram os meninos a um canto e Katherine pôde ver Richard empertigar-se ao ver Yancy.
- “A gente se encontra às sete em ponto ,ok?”-a voz de Peter imitava Yancy com perfeição se não fosse a dose cavalar de sarcasmo que continha.- São sete e quarenta e cinco.
- Não enche o saco, porra.- disse Katherine abraçando o amigo.- Senti sua falta.
- É, eu também, cadela.- respondeu ele erguendo-a no ar. Pete era alto e tinha sempre um cheiro muito bom. Algo de Hugo Boss com uma pitada de menta.
- Me dá licença, Pete.- disse Mark separando os dois.
Kath riu e abraçou Mark. De todos, ele era o mais protetor. Mark era seu irmão mais velho. Ciumento e possessivo, ele fazia o que Thomas deveria fazer.
- Eu soube que não rolou com a Yan. Que pena.- disse ela ao ouvido dele.
- É. Mas tudo bem. Talvez tenha sido melhor assim. A propósito, você está linda.
Richard já não estava muito bem. Parecia já ter bebido um pouco e tinha os olhos distantes e focados no nada. Kath beijou sua bochecha com carinho, e ele fechou os olhos esboçando um sorriso.
- Seu cheiro me faz lembrar a lua. – disse ele com a voz engrolada e os olhos vermelhos.
Kath olhou para ele preocupada. Quando Richard encarnava o poeta, alguma coisa não estava bem.
Katherine apertou o nariz do garoto e virou-se para cumprimentar os outros. Era tão estranho ter passado tanto tempo sem falar com nenhum deles, visto que conviviam todos os dias. Para ela, todos estavam iguais. Ninguém mudara muito. Talvez Rich estivesse um pouco mais alienado em Yan. Mark parecia ter malhado um pouco também. Daniel estava um pouquinho diferente. Não fisicamente. Mas carregava uma expressão dura e intensa em seu rosto, tanto quanto madura. Katherine saiu de seu devaneio quando Peter perguntou:
- E suas férias ?
- Não pergunte , Pete. Foram horríveis.
- Como a morte. - lamentou-se Richard.
- Não podem ter sido tão ruins, Kath.- disse Daniel.
- Ah, podem sim, Danny.- contestou ela.- Foram um fiasco.- de repente lembrou-se do que a intrigou. - Onde você passou as férias, Dan?
O garoto engoliu rapidamente o pedaço de pizza que comia e respondeu:
- Em um aras no interior, o aras do meu tio. Foi...ok.- ele deu uma pausa para pensar no que dizer e bebeu um pouco de um líquido avermelhado que estava na taça à sua frente.- O lugar é legal, sabe. Mas não tem muito o que se fazer.
Richard entrou no meio da conversa falando:
- Lugar pequeno sempre tem mulher, Dan. Sempre tem coisa pra fazer.
Os três riram e Daniel falou:
- Mas quando acabam as mulheres, acaba o que se fazer.
Richard assentiu com a cabeça e virou a garrafa de cerveja de uma vez só. Katherine curvou-se na direção de Daniel e perguntou baixinho:
- O que aconteceu ? O Rich nunca bebe mais que uma taça.
- É meio complicado, sabe. Ele soube do Mark com a Yancy. O clima entre os dois está meio estranho agora. - respondeu ele com cara de preocupação- Particularmente, eu acho que ele está meio que querendo se mostrar pra Yan.
Katherine olhou para o amigo com pesar e cochichou novamente para Daniel:
- Não é que ela não goste dele, é que simplesmente não daria certo.
- É, eu sei.- concordou ele.
Katherine olhou para os amigos ao redor da mesa. Sentira mesmo saudade daquilo tudo. Mark estava realmente acanhado diante de Richard, que parecia prestes a cair bêbado a qualquer momento. E ela amava tudo aquilo.
Kath olhou para Bay, que parecia estar fora de órbita.Virou-se em seguida para Yancy e perguntou baixinho:
- O cara que a Bay conheceu é daqui de Liverpool?
Yancy mordeu o cubo de gelo que tinha na boca e sorriu maliciosamente.
- Bay! A Kath está perguntando se a bicha que você está pegando é daqui mesmo.- berrou ela para amiga que estava do outro da mesa.
O queixo de Kath caiu e a garota olhou desesperada para Bailey, que parecia mais indignada que nunca e fuzilava Yancy com os olhos. A mesa inteira ria agora e Pete perguntou:
- A Bay? Com outro emo? O que vocês fazem exatamente? Planejam um suicídio romântico pra se encontrarem em um plano superior ou coisa assim?
Todos riram, menos Bailey. Katherine abaixou-se com a suposta desculpa de pegar um garfo para Bay não ver que também ria.
- Não ligue pras coisas que o Peter diz, Bay. Ele é um completo idiota.- disse ela depois de se recompor.
- Nem vem, Mayden. Você também riu.- Mark disse imediatamente em defesa do amigo.
Katherine fuzilou o garoto com os olhos. Não ficara mais claro que o que ela mais queria era ver era que o guarda-chuva de papel na bebida à sua frente entrasse pela garganta de Mark causando-lhe uma dor no mínimo excruciante.
- Eu sei, Mark.- disse ela entre os dentes.- Por isso eu te peço desculpas, Bay. Não era minha intenção te chatear.- e olhou para Pete com reprovação.
- Foi mal, Bailey. Eu também não queria te aborrecer- lamentou-se ele.
Bailey fez seu tão famoso biquinho de chateação e disse:
- Eu não sei porque sempre perdôo vocês. Se eu não fosse eu mesma eu não te desculparia, Pete.
Pete levantou-se de onde estava e abraçou a amiga.
- Se você não fosse você mesma eu não te amaria tanto, então eu não te encheria tanto.
- Porra, a rejeição não pode ser muito pior que isso!- gritou ela.
Então Daniel perguntou:
- Alguém sabe quando as aulas começam?
- Dia primeiro de setembro.- respondeu Richard com a voz engrolada. Ao que parece ele ainda conseguia falar com coerência.
Yancy soltou um guincho agudo - que Kath supôs que fosse um grito - e disse:
- Mas isso é na semana que vem!
- Suponho que sim.- riu-se Daniel- Qual o problema?
- Qual o problema, Worren? Eu não posso começar as aulas sem um guarda-roupa novo! É completamente inadmissível!- Yancy cuspia as palavras em Daniel.
- Perdão, Yan.- Danny implorou teatralmente, sufocando as risadas.- Mas você vai me matar agora. Meu aniversário é na sexta-feira.
Bailey levou as mãos à boca e choramingou:
- Que tipo de amiga eu sou? Eu me esqueci completamente do seu aniversário, Danny.
Yancy agora surtava à mesa, aparentemente sem conseguir respirar.
- Sexta-feira? Worren! - gritou ela, que parecia à beira das lágrimas. - E vocês dizem ser meus amigos! Vocês deviam zelar pela minha sanidade mental!
- Você não tem sanidade mental, Yan.- riu-se Peter.
- Veja só? Então você deveria cuidar para que passasse a ter. E ainda diz que me ama.
Daniel trincou um cubo de gelo entre os dentes e falou:
- Não precisa se preocupar tanto com meu aniversário, Yan. Só chamei seis pessoas.
Yancy franziu a testa e intrigou-se:
- Quem?
Richard começou a rir descontroladamente e derramou a bebida que segurava na toalha da mesa. Yancy afastou-se mecanicamente, receosa de que tal pudesse chegar no seu vestido. Bailey balançou a cabeça desviando o olhar de Richard e se dirigiu a Yancy:
- Yan, você já parou e contou quantos somos aqui, sentados na mesa? Tudo bem, é difícil mesmo, eu te ajudo: somos sete. O aniversariante é o Daniel, então restamos nós seis. Entende? Os convidados somos nós seis!
Por um momento Katherine realmente pensou ter visto Yancy refletindo, mas talvez tenha acontecido em uma fração de segundo, pois logo depois a garota esqueceu os bons modos à mesa e mostrou o dedo do meio para Bay. Bailey fez um gesto em direção ao coração e mandou um beijo para a amiga.
- Onde vai ser a festa, Daniel?
- Na minha casa. - respondeu ele normalmente. - Meus pais vão viajar a negócios e Harry vai dormir na casa de algum amigo. A casa vai ser nossa. - e levantou o copo como se brindasse a algo.
Harry Worren era o irmão mais novo de Daniel. Katherine nunca conhecera uma criança de sete anos mais estranha. Dizem que a verdadeira identidade de uma criança é formada por volta dos quatro anos de idade. A questão é que nessa mesma época, o garotinho assistiu Harry Potter pela primeira vez. Inacreditavelmente, ele realmente pensa que é o garoto Potter de algum universo paralelo. Como se tal fato não bastasse, carrega um graveto no bolso de trás da calça, tem uma cacatua branca chamada Edwiges – apesar de não entender porque ela se recusa a entregar cartas – e assassinou cruelmente o hamster de Bailey, alegando que tal não era um hamster, mas um traidor; o que derramou lágrimas da garota por muito tempo.
- Vai ser quase uma festa de início de ano pra gente, sabem.- disse Kath – Há muito tempo a gente não se diverte juntos. - e deu as mãos à Bailey e a Daniel, que estavam ao seu lado. Os olhos de Bailey ficaram grandes e brilhantes de repente e Yancy provocou-a:
- Por quê? Por que agora, Bay? Será que uma vez na vida você pode tentar não chorar?
Mas foi Pete que respondeu:
- Não. Não dá, Yan. Esse momento é gostoso até pra você que não sente nada. Pode admitir.
Yancy não respondeu. Não carecia. Todos já sabiam a resposta; e era maravilhosa. Porque nada naquela hora poderia separar aquelas mãos. Absolutamente nada.

sábado, 30 de janeiro de 2010

' CHAPTER 01 - It Won't be Long



" Since you left me i'm so alone. Now you're coming, you're coming home!"

(It Won't be Long, The Beatles)

Katherine não havia chegado ao patamar da escada e já escutava o discurso de Thomas, seu irmão mais velho. Um tremendo idiota, na opinião dela. Ele começaria o quarto ano e já enlouquecia o mundo com o seu estresse banal com relação à faculdade. Já tinha todos os seus planos para o futuro. Seria primeiro-ministro. Grande. Ser nomeado o presidente da turma quatro anos consecutivos e ter vencido a feira de ciências na etapa regional não significava muita coisa para Kath. Para ela, ele continuava o mesmo retardado de sempre, brigando pelo controle remoto e contando para os pais todas as vezes que ela chegava tarde em casa. Ela sabia que ele seria aceito em todas as universidades que quisesse. Era um completo geek, com o nariz enterrado na tela do computador e dos livros o dia inteiro.
Katherine entrou na cozinha discretamente e beijou os pais. Sentou-se à mesa ao som melodioso dos gritos da família. Nada como um dia após o outro.
Katherine passava a geléia na torrada quando comentou:
- Mãe, acho que Thomas está certo.
E então ela conseguia escutar as vozes em sua cabeça novamente. O silêncio preencheu a cozinha e até o pai baixou os óculos para espiar sobre o jornal que lia.
- Sério. – continuou ela. – Por favor, sejamos sinceros. Não vamos agüentar muito mais tempo vivendo sob o mesmo teto desse andróide. Ele quer ir para Londres? Poxa, Tommy, não tem uma universidade na Finlândia, na Austrália, sei lá? Londres é perto demais.
A Sra. Mayden estalou os lábios em reprovação e continuou comendo.
- Se eu conseguisse aprender finlandês em um ano, Katherine, eu aprenderia, só para viver tão longe assim de você. – e mostrou-lhe o dedo do meio.
- E então nós poderemos transformar seu quarto em uma academia! E finalmente teremos coisas úteis em casa ao invés de você. – provocou a garota sorrindo. Deixar nervoso alguém estúpido como o irmão era realmente um fato trivial, mas ainda assim ela saboreou o efeito de suas palavras.
- Que seja. – ignorou o irmão.
A garota saiu da cozinha rindo. As amigas não deveriam demorar muito agora. Kath jogou-se no sofá e ligou a televisão preguiçosamente, esperando pelas amigas. Sábado de manhã era sempre mais monótono que o normal. A programação televisionada era uma porcaria. A garota apertava os botões frenética e compulsivamente, procurando por algo que chamasse sua atenção.O mais animador que encontrou foi a reprise do Top 20 na Mtv. Vinte minutos depois,- ou ao que pareceu a ela várias manhãs nubladas - alguém chamou à porta. Katherine levantou-se rapidamente para atender, mas tarde demais, Thomas já havia aberto a porta. Antes mesmo que ele abrisse a boca, o hall explodiu de gritos. As três amigas pulavam histericamente enquanto Tommy se retirava nervoso.
Katherine olhou para as duas ainda precisando refrear a vontade alucinante de continuar gritando, abraçando, beijando e mordendo cada uma delas. Bailey, a pele outrora branquinha, conseguiu ficar no máximo com as bochechas coradas, depois de todo aquele tempo na praia. O cabelo preto, curto e desfiado até os ombros deixava seu rosto ainda mais fino e delicado, ainda que a intenção fosse a contrária. Seu jeito displicente, com shorts jeans curtos e uma camiseta do The Clash, desbotada na medida certa a deixavam linda a ponto de ela tentar não ser. Ninguém conseguia explicar Bailey, nem ela mesma. Yancy, absolutamente o oposto. Cabelos muito lisos e loiros, compridos até a cintura emolduravam o rosto escultural. Seu corpo era longo, magro e tenso e ela tinha dois enormes globos oculares com íris azuis que faziam doer se você olhasse muito tempo. Ela vestia uma blusa de algodão rosa Marc Jacobs e um jeans skinny Seven, com chinelos baixos Jimmy Choo. Ela levantou os enormes óculos Chanel e os colocou sobre a cabeça. É, Katherine também odiava gente feia, pobre e mal-vestida.
- Vocês não sabem quantas vezes eu morri sem vocês comigo. – disse Katherine melodiosamente.
- Nós também morremos, Kath. – disse Yancy largando a bolsa no chão e jogando-se no sofá. – Várias e várias vezes.
- É, sente só meu estilo praiano. – disse Bailey ironicamente. – Depois de um tempo sem nada pra fazer eu tentei assassinar Yancy duas vezes, mas ela fez um pacto de sangue com o Diabo e não morre mais.
Bailey sentou-se na poltrona azul do pai de Katherine e pôs os pés na mesinha de centro. Yancy e ela demoraram bons trinta minutos descrevendo a viagem de um mês pelo litoral britânico.
Katherine sugeriu que fossem para outro lugar. O sol lá fora estava bem forte. Sentaram-se à sombra de um velho carvalho plantado bem no meio do parque ainda quando seu pai era criança. Há muito tempo não viviam um momento como aquele. Yancy, seu irmão Peter e Bailey viajaram bem no início das férias, mas Kath não pôde ir. As pessoas da família viriam da Escócia visitá-los. Pessoas que ela nem sabia da existência, bufou Katherine. Sentira falta das amigas, não passavam muito tempo longe umas das outras, tinha se esquecido de como ela precisava delas. Kath não estava exatamente prestando atenção no que as garotas diziam. Naquela hora, sentiu um calor diferente, que ela tinha certeza de que não vinha do sol, mas emanava de dentro dela mesma. Demorou um pouco até que percebesse que aquilo era alegria. Sorrindo perguntou:
- E o seu lance com o Mark, Yan?
- Não vai rolar. – respondeu ela confusa - Ele é amigo do meu irmão. Ia ser muito estranho para todo mundo.
- E o Richard ficaria desolado, coitadinho.- lamentou Bay descascando o esmalte preto.
- Eu adoro o Rich. De verdade. Mas eu não consigo me imaginar com ele, sabe. Nós simplesmente não temos nada em comum. Eu não estou fazendo isso por ele, ok? É que seria difícil para o Pete aceitar.
Katherine riu debochada e disse:
- Como se você desse a mínima pro que o seu irmão pensa.
- Não é por isso, Mayden.- Kath franziu a testa ao ouvir o uso do seu sobrenome. – Eu preciso pensar no Mark também. A amizade dele com meu irmão ficaria em jogo.
- Tudo bem, Sullivan. – respondeu a garota. Mas você sabe que o Rich ama você! Sempre amou, e você sempre ignorou isso.
- Por que me chamou de Sullivan?- desconversou Yan.
Kath não pestanejou:
- Por que me chamou de Mayden?
A amiga não respondeu. Só riu e balançou a cabeça. Parou de repente, intrigada, e indicou Bailey com um gesto. A garota estava deitada na grama olhando para o céu com ar de felicidade. Katherine cutucou-a com um graveto , o que a fez levantar de uma vez só:
- Ai! O que foi? – disse ela massageando as costelas.
- Exatamente o que eu ia te perguntar agora.
Bailey riu de um modo gozado e seu rosto assumiu uma forma sonhadora:
- Não é nada. – e riu de forma travessa.
- Claro que é. – disse Yancy fazendo cócegas em Bay – Ela conheceu um cara no trem, Kath. Indie, emo, punk, sei lá. Loser. – disse ela caçoando da amiga.
- Cala a boca e deixa que ela fale, Yan.- interrompeu Katherine – Ele não é gay, certo? – Bailey tinha uma queda natural por gays. O primeiro namoro dela terminou depois que encontraram o cara em uma posição constrangedora no vestiário da escola depois do jogo de pólo. Como Bailey mesma diria, talvez ela tenha sido um travesti na vida passada.
Yancy fez cara de surpresa e começou a rir loucamente. Bailey zangou-se e disse:
- Não vou falar. Vocês são duas vacas.
- Eu sei, Bay.- disse Kath- Mas nós não somos duas, somos três. Deixa de frescura e fala logo. Ele também é... – ela escolheu as palavras com cuidado –alternativo?
- E isso importa, Kath? A gente se viu no trem e houve uma conexão imediata. Eu não entendo dessas coisas de estar apaixonada, mas deve ser isso que eu estou sentindo. Me sinto uma idiota, outro dia chorei ouvindo A Thousand Miles no elevador!
Katherine percebeu que ela se importava de verdade dessa vez. E então, horrivelmente, imprevisivelmente, Yancy perguntou:
- Tem certeza de que ele não é gay? Sabe, isso é BEM nojento.
E mais uma vez ela demonstra ter a sensibilidade de um machado cego. Bailey fuzilou-a com os olhos.
- Não quero mais falar disso. – e virando-se para Katherine:
- Você não falou sobre suas férias ainda, Kath.
Kath sentiu seu sorriso escorregar como seiva.
- Já disse que foi como sempre. Nada de tão interessante. Quatro semanas trancada em casa com o Tommy e a Lisa ou perambulando pelas ruas de Liverpool sorrindo para os quatro motivos que me fazem feliz nesse mundo sujo.
Katherine sempre achou que havia nascido no melhor lugar do mundo. Antes de serem a maior sensação do rock’n roll ,se espalhando pelo mundo e conquistando qualquer pessoa com suas músicas absolutamente incríveis, os Beatles foram quatro jovens normais, que viviam na cidade de Liverpool, Inglaterra. Katherine nasceu no lugar certo, ou cresceu amando a coisa certa.
- Sério, May. Você vai acabar ficando doente. – alarmou Yancy.- Isso é um vício. Ouviu? Você é uma viciada.
-Viciada não. Aficcionada.- respondeu ela com indignação.- Os Beatles não são entorpecentes. Ou talvez sejam, mas eles curam minhas tristezas e me trazem alegria.
- Eram, Katherine, eram.- disse a outra impaciente- os Beatles acabaram! O Paul McCartney tá por aí, eu sei; mas precisa de uma bengala pra subir em um palco ok?
Bailey olhou para a amiga reprovando-a:
-Yancy, A Kath ama os caras desde criança. Ela sabe que a maioria está morta e que o resto já não toca mais, mas para ela isso não importa.- ralhou ela. – Seria o mesmo se eu te dissesse que você vai acabar morrendo por continuar comprando mais pares de sapatos que Imelda Marcos tem.
-Ok. – respondeu Yancy indiferente.- A gente acabou de chegar, não quero discutir.
Um silêncio constrangedor tomou conta das três e de repente Yancy comentou:
- O Pete disse que o Richard viajou para Londres, O Mark foi para algum lugar estranho na Escócia , mas não disse onde o Daniel passou as férias. Vocês sabem?
Katherine negou:
- Não, na verdade não vejo o Dan desde a festa de fim das aulas. – e enrubesceu.
- É, eu também não o vejo a muito tempo. – choramingou Bailey.
- Estranho, não é? Nós sempre viajamos juntos e dessa vez cada um foi para um canto diferente.
As amigas conversaram no parque até bem tarde. Foi preciso que o pai de Katherine as chamasse para almoçar. Como se alguma delas estivesse com fome em um momento como aquele. As garotas, inseparáveis, comeram quase nada e subiram para o quarto de Kath.
.Yancy agora aproximava-se de umas das paredes,e olhando para uma das fotos disse:
- Eu não tinha visto esse ainda, Kath.
- Você não teria visto mesmo. É novo.- respondeu a garota. - Ganhei do meu tio Jhonatan quando ele veio aqui.
- Aquele gordo barbudo que cheira a licor? - perguntou Bailey.
- Exatamente.- respondeu ela rindo.- Ele passou aqui nas férias.
Yancy examinava as fotos interessada. Ou fingindo interesse. Talvez estivesse tentando compensar o que havia dito pela manhã.
- Esse também é novo?
Katherine olhou para uma foto em que os quatro rapazes estavam sentados em degraus de pedra, no meio do nada. Na verdade não era novo. Daniel Worren comprara em uma feira de antiguidades para presentear Katherine em seus dezesseis anos. Era realmente raro.
-Não. O Danny me deu .- disse ela ainda pensando onde poderia estar o amigo. Por que ele não havia feito contato com nenhum deles durante as férias?
Ela ainda estava perdida em seu devaneio quando Bailey perguntou:
- O que nós vamos fazer agora, pessoas?
- Por que nós não vamos a algum lugar? - sugeriu Yan.
- Agora?- perguntou Bay.
- Talvez. Mas se a gente for mais tarde, os garotos também podem ir.- calculou Kath.
- É uma boa, Yan. - observou Bay.- Ás vezes você pensa em outra coisa que não seja o seu cabelo.
- É porque eu já decidi o que eu vou fazer com ele amanhã.- respondeu ela impaciente. - Vou ligar pra minha casa e avisar o Pete.- disse Yancy pegando o celular.
Bailey levantou-se e andou até o espelho.
- Eu estou cansada do meu cabelo, Kath.- disse ela passando a mão nas curtas mexas pretas.- Quero outra cor agora. Preto me deixa um pouco doentia, não deixa?
Katherine olhou para a amiga como se a avaliasse.
- É, deixa.- respondeu Bay sem esperar pela resposta.
- Eu gosto do seu cabelo. Só tenha um pouco de senso crítico.
- Senso Crítico é o nome do meu pai. - disse ela.- Mas se eu fizesse alguma coisa azul seria legal...
De repente as duas ouviram um grito de Yancy ao telefone:
- Ai, que tudo!- berrou ela histericamente.- A gente se encontra às sete em ponto ok? Mande um beijo aos garotos por mim. Ok. Você me entendeu, Pete. Tchau.
- Meu Deus! O que aconteceu?- perguntou Katherine.
- Nada.- respondeu Yancy pensativa. - Escutem: eu liguei pro tosco do meu irmão e os garotos estavam lá - incrível isso, nós saímos e eles chegam. Eles disseram que nos encontrariam no Beatles' Dinner.-ela olhou para Katherine atentamente.- Você não andou envenenando meu irmão não é?
- Eu? Nunca!- disse ela culpadamente- Mas não me incomoda a escolha do lugar.- The Beatles' Dinner era o restaurante preferido de Katherine desde os cinco anos de idade. Simplesmente porque tudo, desde a comida à decoração do lugar era inspirada em- adivinha o quê?
- A que horas, Yan?- perguntou Bay.
- Às sete em ponto, amor. - disse ela.- Nós temos o tempo exato de fazer as unhas das mãos e dos pés, as sobrancelhas e ajeitar o cabelo.- falou ela mais para si mesma que para as outras garotas. De repente virou-se para Katherine.- Linda, você me empresta aquele seu vestido que você nunca usa?
- Claro, amor.- respondeu Katherine rindo.E virando-se para Bailey – E eu comprei uma blusa que vai ficar perfeita em você, pensando bem.
- Sempre soube que eu tinha algum motivo pra te amar tanto, vadia.- disse Yancy dando-lhe um beijo na bochecha.- Eu tomo banho primeiro. Onde eu encontro uma toalha, May?
- Na última gaveta do armário do banheiro.- respondeu ela rindo.
- Valeu.- e correndo, foi para o banheiro.
Katherine abriu as portas do guarda-roupa , pensando no que usaria.
- Senti mesmo sua falta, Kath. – disse Bailey abraçando-a. - Você é muito... sabe como é.-disse ela.
Katherine correspondeu o abraço e disse:
- Eu também senti saudades. Eu não vivo sem vocês.
As duas sorriram. De repente, Yancy bradou de dentro do banheiro:
- KATHERINE MAYDEN!
Kath e Bailey correram até a porta exasperadas.
- Yan? Você está bem?- perguntou bay assustada.
- Estou! Mas porque diabos há um George Harrison assistindo ao meu banho?- gritou ela zangada.
Katherine, furiosa, gritou:
- Não enche Yancy!Eu não achei espaço no quarto ok? Tive que pregar alguns no banheiro! - e nervosa, se retirou.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

' PREFÁCIO




“And then while I’m away, I’ll write home everyday. And I’ll send all my loving to you.”
All my Loving, The Beatles


Katherine Mayden acordou com a chuva, no meio da madrugada, sentou-se na cama segurando os joelhos e olhou para a mesa-de-cabeceira. Não ouvia o tic-tac do relógio. Percebeu que ele já não se mexia. A pilha provavelmente havia acabado. Levantou-se aproximando-se vagarosamente da enorme janela de seu quarto. A rua estava escura e apenas um dos postes tinha a luz fracamente acesa. Não passava das cinco da manhã.
Voltou-se para as paredes de seu quarto e explorou-as minuciosamente. Cada pedaço do quarto era coberto por fotos enormemente ampliadas que mostravam cinco jovens músicos. Katherine Mayden parou de ler contos de fada aos cinco anos de idade, aos sete já não brincava com bonecas, e aos nove anos beijou um garoto pela primeira vez. Ela nunca gostou de cantigas infantis, aprendeu a gostar do rock inglês bem cedo, com o avô. Enquanto as garotas de sua idade queriam ser Madonna ou Britney Spears, ela passou cada segundo de sua vida sonhando em ser uma das musas das músicas dos Beatles. Sem sombra de dúvida, John Lennon foi o maior poeta de todos os tempos; depois de Shakespeare, é claro. A banda dos anos 60 estampava com sorrisos cada centímetro do quarto da garota, como um enorme papel de parede, o que daria a qualquer pessoa levemente normal a impressão de estar no lugar de alguém obsessivamente psicodélico. Mas ela simplesmente não era normal.
Katherine empurrou sua poltrona de forma que ficasse recostada à janela e sentou-se, com a cabeça encostada na vidraça agora embaçada por sua respiração. Como sempre, as férias tinham sido um fiasco. Dificilmente seus pais tinham tempo para viajar, e agüentar o irmão mais velho e a irmã mais nova era definitivamente uma tarefa mórbida. Se pudesse ter viajado com Bailey e Yancy...as duas devem ter se divertido muito. Mal podia esperar para revê-las. O que, se estivesse certa, aconteceria ainda hoje. Torcia para que as amigas tivessem sentido tanta saudade quanto ela. Bailey Kinsella e Yancy Sullivan eram parte dela. Seu corpo não funcionava sem elas. Não havia uma boa memória em que elas não estivessem presentes, ou uma lembrança trágica em que elas não a confortaram. Sentia falta delas. O coração de Kath quase secava de desejo quando relia os cartões postais que elas lhe mandaram durante as férias. Vacas, pensou ela rindo.
Ela levantou-se e foi até a parede em que havia uma única foto emoldurada bem no centro de todas as outras dos Beatles que se sobrepunham tentando aparecer. Ela retribuiu os sorrisos dos sete jovens na imagem. Na moldura piegas que Mark tinha lhe comprado de aniversário, escrito em letras douradas “Happy Hanukah” - porque era a única coisa que ele encontrou depois das 11 da noite em uma loja de conveniências de um posto de gasolina para sua festa de 16 anos – ela percebeu o efeito de um ano sobre cada um deles.
Riu ao olhar-se no espelho e ver seus cabelos ruivos levantados e embaraçados, quase como um girassol. Suas feições, delicadas, formavam com singeleza um pequeno nariz e logo depois, descendo ao rosto, uma boca tão vermelha quanto uma cereja. Sua grande decepção eram seus olhos. Castanhos como os de sua avó, fazia dela diferente do pai e dos irmãos, todos nascidos com os olhos esverdeados.
Olhou para o relógio novamente, e então se lembrou que ele estava parado. Levantou-se e procurou o BlackBerry dentro do guarda-roupa e encontrou-o em meio aos lençóis. O relógio marcava cinco e quinze.
A família ainda estava dormindo e ela teria tempo de tomar um banho decente. No mínimo trinta minutos com a água quente escorrendo pelas costas. Sorriu de um modo travesso e pegou a toalha. Pulou feliz até o chuveiro cantando It Won’t be L ong.