
"Woke up, fell out of bed, dragged a comb across my head. Found my way downstairs and drank a cup, and looking up I noticed I was late."
(A Day in the Life, The Beatles)
Qual era mesmo o sentido de ir à escola? Ser alguém com muito dinheiro nunca interessou Katherine realmente. A escola era mais uma passarela de vidas fúteis e artificiais idolatradas pelos trouxas e esnobadas por aqueles que muito se importam com outras coisas que não fossem a vida social e aparência: os outros trouxas.
Kath estava deitada na cama folheando o último anuário. Lá estava Yancy, sempre perfeita, com mais atividades extracurriculares possíveis; Bailey no palco do auditório, dramatizando o poema “Stop All The Clocks”, de W. H. Auden; Daniel, Peter e Mark impecavelmente vestidos com o uniforme de pólo sobre um cavalo negro; e Richard vencendo o campeonato de xadrez pela décima quarta vez. E ela, em uma página inteira, por simplesmente existir. Fazia algum sentido? A garota fechou o livro e junto com ele, seus olhos.
Katherine sentia-se constrangida sempre que pensava em Daniel. Era estranho como ela não sentiu vergonha alguma quando se viram, mas quando pensava nele sentia milhões de borboletas no estômago. Ela tentou lembrar-se do que aconteceu exatamente naquela noite, mas não conseguiu. Ela dançou no balcão com Yancy e Mark, jogando vinho tinto barato nos amigos lá embaixo, depois alguma coisa sobre o nacho com queijo ter acabado, logo em seguida as costas de Dan salpicadas de sardas nos ombros, o gosto de álcool e chocolate em uma mistura eletrizante e seu sutiã vermelho no chão do quarto dos Worren. Então ela havia mesmo mostrado os peitos para ele. Ele se lembraria como eles são ou estaria muito bêbado para reparar? Nada tinha acontecido de tão grave. Yancy já havia nadado pelada na piscina em uma festa, e todos os caras insistiram em lhe fazer companhia.
Pensar em Daniel não era muito bom à essa altura. Era uma tortura. Mas ela não conseguia parar. Por uma fração de segundo ela chegou a pensar que... E então riu de sua própria bobagem. Ela não estava apaixonada por Daniel, claro que não. Ela era praticante do desapego. O amor é para os velhos, os poetas, os românticos, os fracos e dependentes. Não para ela.
No dia seguinte, Kath não queria abrir os olhos. Era tão bom ficar dentro do pijama quentinho, tentando lembrar do que havia sonhado, que ela gostaria de ficar assim pra sempre. Mas era o primeiro dia de aula ela precisava estar pronta em poucos minutos. Minutos? Deus, ela devia ter perdido bons dez minutos apenas tentando decidir o que fazer de sua vida.
Levantou-se abruptamente e se arrumou em menos tempo do que gostaria. Não era preciso muito pra ir à escola. Os uniformes passados e alinhados no cabide, os novos óculos Gucci de aros azul-marinho combinando com o blazer e sapatos boneca em verniz. Ela ouviu a buzina do carro de Peter lá embaixo algum tempo depois e desceu correndo. Gritou um breve 'Tchau!' para todos na cozinha e saiu.
- Desculpa, gente. - ofegou ela ao entrar no carro.
Pete beijou-a bem perto da boca e disse:
- Tudo bem. Eu sempre te perdôo.- e piscou.
- Eu não. – reclamou Yan do banco da frente. - Vaca. Acha que a gente fica por sua conta?
Katherine mostrou a língua para Yancy, e olhou para Peter. Eles eram exatamente iguais. Peter era um ano e meio mais velho, o que fazia as pessoas pensarem que eram irmãos gêmeos. Yancy era Pete de saias. O cabelo muito loiro platinado, os olhos muito azuis e a boca fina... a semelhança era assustadora. Yancy falava alguma coisa que Katherine não ouvia. Ela por sua vez, observava Peter imitando a irmã divertidamente. Kath riu e jogou os cabelos para trás. Deitou sua cabeça no encosto da poltrona e fechou os olhos ainda fingindo que escutava Yancy. Ela falava algo sobre a nova coleção da Banana Republic, ou sei lá o quê. Peter mordeu o ombro de Katherine ao mesmo tempo que ela lhe dava um beliscão nas costelas. Ambos riram até perder o fôlego, quando Yancy virou-se e disse:
- Vocês nunca me escutam, seus bastardos!
E não ouviam mesmo. Não tinha tempo ruim com Pete, ele sempre foi o bobo da corte de Katherine, seu amigo mais idiota, e o único que conseguiu fazê-la rir depois que Thomas deu um ataque de raiva e resolveu quebrar o primeiro LP dos Beatles que ela ganhou. Ela poderia passar a vida ao lado dele sem fazer nada, e não se importaria.
Yancy estacionou e Kath viu que eles haviam chegado. A torre do relógio da escola estava à dois minuto das oito da manhã, que era quando as guaritas fechavam. Os três correram rindo, desesperados, até chegar nos portões gigantescos e passar as digitais pelas roletas. A John Adams nunca foi o melhor exemplo de tolerância.
Pete despediu-se delas e subiu para a sala, arrancando suspiros das meninas nos corredores. Não havia um garoto mais desejado na escola que ele – talvez Daniel ou Mark, mas ele era o único que se importava- e isso deixava Katherine e Bailey em uma situação o tanto quanto embaraçosa, por serem as melhores amigas dele. Bailey fez biquinho quando viu que Pete subira sem falar com ela. Com a camisa amassada, as mangas dobradas e os dois primeiros botões abertos, ela chegou antes que o sino tocasse. Era linda, com o jeito rebelde e displicente, sem ligar pra o que pensavam sobre ela. O cabelo azul contrastava de um jeito louco com a pele muito branca e o rosto delicado.
- Primeiro período de Biologia, vamos. – avisou Yancy depois de olhar os horários – Odeio começar o ano dissecando animais.
Elas entraram na sala rindo e se sentaram nos mesmos lugares como de costume. Daniel entrou ofegante na sala, olhou o relógio no pulso e sorriu para Katherine. Sentou-se do lado dela e ela pôde ver os olhares das outras meninas fuzilando-a.
- Não consigo mais acordar cedo, é uma merda. – disse ele. Daniel era da da mesma turma de Pete e Mark, mas reprovou em Biologia. Festas demais? Álcool demais? Garotas demais? Nós entendemos, querido.
Katherine riu e limpou a gola da camisa dele, suja do que parecia molho.
- Eu sinto falta da escola, sério. O pior é que eu gosto desse lugar, apesar de tudo.
Daniel balançou a cabeça:
Katherine abriu a boca para replicar quando o Prof. Jullian entrou. Eles se viraram para frente. Imediatamente ela sentiu a pequena bolsa de mão vibrar. Era uma mensagem de Yancy:
Ele dissecou dois sapos e os calçou? Que sapatos são esses?
Katherine riu e olhou para trás. Yancy olhava para o professor com cara de repugnância e Bailey debruçava-se na carteira de mogno para rir. Ela amava aquelas vacas. Katherine mirou a lousa e pensou que aquela seria uma aula longa.
Kath estava deitada na cama folheando o último anuário. Lá estava Yancy, sempre perfeita, com mais atividades extracurriculares possíveis; Bailey no palco do auditório, dramatizando o poema “Stop All The Clocks”, de W. H. Auden; Daniel, Peter e Mark impecavelmente vestidos com o uniforme de pólo sobre um cavalo negro; e Richard vencendo o campeonato de xadrez pela décima quarta vez. E ela, em uma página inteira, por simplesmente existir. Fazia algum sentido? A garota fechou o livro e junto com ele, seus olhos.
Katherine sentia-se constrangida sempre que pensava em Daniel. Era estranho como ela não sentiu vergonha alguma quando se viram, mas quando pensava nele sentia milhões de borboletas no estômago. Ela tentou lembrar-se do que aconteceu exatamente naquela noite, mas não conseguiu. Ela dançou no balcão com Yancy e Mark, jogando vinho tinto barato nos amigos lá embaixo, depois alguma coisa sobre o nacho com queijo ter acabado, logo em seguida as costas de Dan salpicadas de sardas nos ombros, o gosto de álcool e chocolate em uma mistura eletrizante e seu sutiã vermelho no chão do quarto dos Worren. Então ela havia mesmo mostrado os peitos para ele. Ele se lembraria como eles são ou estaria muito bêbado para reparar? Nada tinha acontecido de tão grave. Yancy já havia nadado pelada na piscina em uma festa, e todos os caras insistiram em lhe fazer companhia.
Pensar em Daniel não era muito bom à essa altura. Era uma tortura. Mas ela não conseguia parar. Por uma fração de segundo ela chegou a pensar que... E então riu de sua própria bobagem. Ela não estava apaixonada por Daniel, claro que não. Ela era praticante do desapego. O amor é para os velhos, os poetas, os românticos, os fracos e dependentes. Não para ela.
No dia seguinte, Kath não queria abrir os olhos. Era tão bom ficar dentro do pijama quentinho, tentando lembrar do que havia sonhado, que ela gostaria de ficar assim pra sempre. Mas era o primeiro dia de aula ela precisava estar pronta em poucos minutos. Minutos? Deus, ela devia ter perdido bons dez minutos apenas tentando decidir o que fazer de sua vida.
Levantou-se abruptamente e se arrumou em menos tempo do que gostaria. Não era preciso muito pra ir à escola. Os uniformes passados e alinhados no cabide, os novos óculos Gucci de aros azul-marinho combinando com o blazer e sapatos boneca em verniz. Ela ouviu a buzina do carro de Peter lá embaixo algum tempo depois e desceu correndo. Gritou um breve 'Tchau!' para todos na cozinha e saiu.
- Desculpa, gente. - ofegou ela ao entrar no carro.
Pete beijou-a bem perto da boca e disse:
- Tudo bem. Eu sempre te perdôo.- e piscou.
- Eu não. – reclamou Yan do banco da frente. - Vaca. Acha que a gente fica por sua conta?
Katherine mostrou a língua para Yancy, e olhou para Peter. Eles eram exatamente iguais. Peter era um ano e meio mais velho, o que fazia as pessoas pensarem que eram irmãos gêmeos. Yancy era Pete de saias. O cabelo muito loiro platinado, os olhos muito azuis e a boca fina... a semelhança era assustadora. Yancy falava alguma coisa que Katherine não ouvia. Ela por sua vez, observava Peter imitando a irmã divertidamente. Kath riu e jogou os cabelos para trás. Deitou sua cabeça no encosto da poltrona e fechou os olhos ainda fingindo que escutava Yancy. Ela falava algo sobre a nova coleção da Banana Republic, ou sei lá o quê. Peter mordeu o ombro de Katherine ao mesmo tempo que ela lhe dava um beliscão nas costelas. Ambos riram até perder o fôlego, quando Yancy virou-se e disse:
- Vocês nunca me escutam, seus bastardos!
E não ouviam mesmo. Não tinha tempo ruim com Pete, ele sempre foi o bobo da corte de Katherine, seu amigo mais idiota, e o único que conseguiu fazê-la rir depois que Thomas deu um ataque de raiva e resolveu quebrar o primeiro LP dos Beatles que ela ganhou. Ela poderia passar a vida ao lado dele sem fazer nada, e não se importaria.
Yancy estacionou e Kath viu que eles haviam chegado. A torre do relógio da escola estava à dois minuto das oito da manhã, que era quando as guaritas fechavam. Os três correram rindo, desesperados, até chegar nos portões gigantescos e passar as digitais pelas roletas. A John Adams nunca foi o melhor exemplo de tolerância.
Pete despediu-se delas e subiu para a sala, arrancando suspiros das meninas nos corredores. Não havia um garoto mais desejado na escola que ele – talvez Daniel ou Mark, mas ele era o único que se importava- e isso deixava Katherine e Bailey em uma situação o tanto quanto embaraçosa, por serem as melhores amigas dele. Bailey fez biquinho quando viu que Pete subira sem falar com ela. Com a camisa amassada, as mangas dobradas e os dois primeiros botões abertos, ela chegou antes que o sino tocasse. Era linda, com o jeito rebelde e displicente, sem ligar pra o que pensavam sobre ela. O cabelo azul contrastava de um jeito louco com a pele muito branca e o rosto delicado.
- Primeiro período de Biologia, vamos. – avisou Yancy depois de olhar os horários – Odeio começar o ano dissecando animais.
Elas entraram na sala rindo e se sentaram nos mesmos lugares como de costume. Daniel entrou ofegante na sala, olhou o relógio no pulso e sorriu para Katherine. Sentou-se do lado dela e ela pôde ver os olhares das outras meninas fuzilando-a.
- Não consigo mais acordar cedo, é uma merda. – disse ele. Daniel era da da mesma turma de Pete e Mark, mas reprovou em Biologia. Festas demais? Álcool demais? Garotas demais? Nós entendemos, querido.
Katherine riu e limpou a gola da camisa dele, suja do que parecia molho.
- Eu sinto falta da escola, sério. O pior é que eu gosto desse lugar, apesar de tudo.
Daniel balançou a cabeça:
Katherine abriu a boca para replicar quando o Prof. Jullian entrou. Eles se viraram para frente. Imediatamente ela sentiu a pequena bolsa de mão vibrar. Era uma mensagem de Yancy:
Ele dissecou dois sapos e os calçou? Que sapatos são esses?
Katherine riu e olhou para trás. Yancy olhava para o professor com cara de repugnância e Bailey debruçava-se na carteira de mogno para rir. Ela amava aquelas vacas. Katherine mirou a lousa e pensou que aquela seria uma aula longa.

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