" Is there anybody going to listen to my story? All about the girl who came to stay. She is the kind of girl you want so much that makes you sorry. Still you don't regret a single day.Oh, girl!" (Girl, The Beatles)



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

' PREFÁCIO




“And then while I’m away, I’ll write home everyday. And I’ll send all my loving to you.”
All my Loving, The Beatles


Katherine Mayden acordou com a chuva, no meio da madrugada, sentou-se na cama segurando os joelhos e olhou para a mesa-de-cabeceira. Não ouvia o tic-tac do relógio. Percebeu que ele já não se mexia. A pilha provavelmente havia acabado. Levantou-se aproximando-se vagarosamente da enorme janela de seu quarto. A rua estava escura e apenas um dos postes tinha a luz fracamente acesa. Não passava das cinco da manhã.
Voltou-se para as paredes de seu quarto e explorou-as minuciosamente. Cada pedaço do quarto era coberto por fotos enormemente ampliadas que mostravam cinco jovens músicos. Katherine Mayden parou de ler contos de fada aos cinco anos de idade, aos sete já não brincava com bonecas, e aos nove anos beijou um garoto pela primeira vez. Ela nunca gostou de cantigas infantis, aprendeu a gostar do rock inglês bem cedo, com o avô. Enquanto as garotas de sua idade queriam ser Madonna ou Britney Spears, ela passou cada segundo de sua vida sonhando em ser uma das musas das músicas dos Beatles. Sem sombra de dúvida, John Lennon foi o maior poeta de todos os tempos; depois de Shakespeare, é claro. A banda dos anos 60 estampava com sorrisos cada centímetro do quarto da garota, como um enorme papel de parede, o que daria a qualquer pessoa levemente normal a impressão de estar no lugar de alguém obsessivamente psicodélico. Mas ela simplesmente não era normal.
Katherine empurrou sua poltrona de forma que ficasse recostada à janela e sentou-se, com a cabeça encostada na vidraça agora embaçada por sua respiração. Como sempre, as férias tinham sido um fiasco. Dificilmente seus pais tinham tempo para viajar, e agüentar o irmão mais velho e a irmã mais nova era definitivamente uma tarefa mórbida. Se pudesse ter viajado com Bailey e Yancy...as duas devem ter se divertido muito. Mal podia esperar para revê-las. O que, se estivesse certa, aconteceria ainda hoje. Torcia para que as amigas tivessem sentido tanta saudade quanto ela. Bailey Kinsella e Yancy Sullivan eram parte dela. Seu corpo não funcionava sem elas. Não havia uma boa memória em que elas não estivessem presentes, ou uma lembrança trágica em que elas não a confortaram. Sentia falta delas. O coração de Kath quase secava de desejo quando relia os cartões postais que elas lhe mandaram durante as férias. Vacas, pensou ela rindo.
Ela levantou-se e foi até a parede em que havia uma única foto emoldurada bem no centro de todas as outras dos Beatles que se sobrepunham tentando aparecer. Ela retribuiu os sorrisos dos sete jovens na imagem. Na moldura piegas que Mark tinha lhe comprado de aniversário, escrito em letras douradas “Happy Hanukah” - porque era a única coisa que ele encontrou depois das 11 da noite em uma loja de conveniências de um posto de gasolina para sua festa de 16 anos – ela percebeu o efeito de um ano sobre cada um deles.
Riu ao olhar-se no espelho e ver seus cabelos ruivos levantados e embaraçados, quase como um girassol. Suas feições, delicadas, formavam com singeleza um pequeno nariz e logo depois, descendo ao rosto, uma boca tão vermelha quanto uma cereja. Sua grande decepção eram seus olhos. Castanhos como os de sua avó, fazia dela diferente do pai e dos irmãos, todos nascidos com os olhos esverdeados.
Olhou para o relógio novamente, e então se lembrou que ele estava parado. Levantou-se e procurou o BlackBerry dentro do guarda-roupa e encontrou-o em meio aos lençóis. O relógio marcava cinco e quinze.
A família ainda estava dormindo e ela teria tempo de tomar um banho decente. No mínimo trinta minutos com a água quente escorrendo pelas costas. Sorriu de um modo travesso e pegou a toalha. Pulou feliz até o chuveiro cantando It Won’t be L ong.

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