" Since you left me i'm so alone. Now you're coming, you're coming home!"
(It Won't be Long, The Beatles)
Katherine não havia chegado ao patamar da escada e já escutava o discurso de Thomas, seu irmão mais velho. Um tremendo idiota, na opinião dela. Ele começaria o quarto ano e já enlouquecia o mundo com o seu estresse banal com relação à faculdade. Já tinha todos os seus planos para o futuro. Seria primeiro-ministro. Grande. Ser nomeado o presidente da turma quatro anos consecutivos e ter vencido a feira de ciências na etapa regional não significava muita coisa para Kath. Para ela, ele continuava o mesmo retardado de sempre, brigando pelo controle remoto e contando para os pais todas as vezes que ela chegava tarde em casa. Ela sabia que ele seria aceito em todas as universidades que quisesse. Era um completo geek, com o nariz enterrado na tela do computador e dos livros o dia inteiro.
Katherine entrou na cozinha discretamente e beijou os pais. Sentou-se à mesa ao som melodioso dos gritos da família. Nada como um dia após o outro.
Katherine passava a geléia na torrada quando comentou:
- Mãe, acho que Thomas está certo.
E então ela conseguia escutar as vozes em sua cabeça novamente. O silêncio preencheu a cozinha e até o pai baixou os óculos para espiar sobre o jornal que lia.
- Sério. – continuou ela. – Por favor, sejamos sinceros. Não vamos agüentar muito mais tempo vivendo sob o mesmo teto desse andróide. Ele quer ir para Londres? Poxa, Tommy, não tem uma universidade na Finlândia, na Austrália, sei lá? Londres é perto demais.
A Sra. Mayden estalou os lábios em reprovação e continuou comendo.
- Se eu conseguisse aprender finlandês em um ano, Katherine, eu aprenderia, só para viver tão longe assim de você. – e mostrou-lhe o dedo do meio.
- E então nós poderemos transformar seu quarto em uma academia! E finalmente teremos coisas úteis em casa ao invés de você. – provocou a garota sorrindo. Deixar nervoso alguém estúpido como o irmão era realmente um fato trivial, mas ainda assim ela saboreou o efeito de suas palavras.
- Que seja. – ignorou o irmão.
A garota saiu da cozinha rindo. As amigas não deveriam demorar muito agora. Kath jogou-se no sofá e ligou a televisão preguiçosamente, esperando pelas amigas. Sábado de manhã era sempre mais monótono que o normal. A programação televisionada era uma porcaria. A garota apertava os botões frenética e compulsivamente, procurando por algo que chamasse sua atenção.O mais animador que encontrou foi a reprise do Top 20 na Mtv. Vinte minutos depois,- ou ao que pareceu a ela várias manhãs nubladas - alguém chamou à porta. Katherine levantou-se rapidamente para atender, mas tarde demais, Thomas já havia aberto a porta. Antes mesmo que ele abrisse a boca, o hall explodiu de gritos. As três amigas pulavam histericamente enquanto Tommy se retirava nervoso.
Katherine olhou para as duas ainda precisando refrear a vontade alucinante de continuar gritando, abraçando, beijando e mordendo cada uma delas. Bailey, a pele outrora branquinha, conseguiu ficar no máximo com as bochechas coradas, depois de todo aquele tempo na praia. O cabelo preto, curto e desfiado até os ombros deixava seu rosto ainda mais fino e delicado, ainda que a intenção fosse a contrária. Seu jeito displicente, com shorts jeans curtos e uma camiseta do The Clash, desbotada na medida certa a deixavam linda a ponto de ela tentar não ser. Ninguém conseguia explicar Bailey, nem ela mesma. Yancy, absolutamente o oposto. Cabelos muito lisos e loiros, compridos até a cintura emolduravam o rosto escultural. Seu corpo era longo, magro e tenso e ela tinha dois enormes globos oculares com íris azuis que faziam doer se você olhasse muito tempo. Ela vestia uma blusa de algodão rosa Marc Jacobs e um jeans skinny Seven, com chinelos baixos Jimmy Choo. Ela levantou os enormes óculos Chanel e os colocou sobre a cabeça. É, Katherine também odiava gente feia, pobre e mal-vestida.
- Vocês não sabem quantas vezes eu morri sem vocês comigo. – disse Katherine melodiosamente.
- Nós também morremos, Kath. – disse Yancy largando a bolsa no chão e jogando-se no sofá. – Várias e várias vezes.
- É, sente só meu estilo praiano. – disse Bailey ironicamente. – Depois de um tempo sem nada pra fazer eu tentei assassinar Yancy duas vezes, mas ela fez um pacto de sangue com o Diabo e não morre mais.
Bailey sentou-se na poltrona azul do pai de Katherine e pôs os pés na mesinha de centro. Yancy e ela demoraram bons trinta minutos descrevendo a viagem de um mês pelo litoral britânico.
Katherine sugeriu que fossem para outro lugar. O sol lá fora estava bem forte. Sentaram-se à sombra de um velho carvalho plantado bem no meio do parque ainda quando seu pai era criança. Há muito tempo não viviam um momento como aquele. Yancy, seu irmão Peter e Bailey viajaram bem no início das férias, mas Kath não pôde ir. As pessoas da família viriam da Escócia visitá-los. Pessoas que ela nem sabia da existência, bufou Katherine. Sentira falta das amigas, não passavam muito tempo longe umas das outras, tinha se esquecido de como ela precisava delas. Kath não estava exatamente prestando atenção no que as garotas diziam. Naquela hora, sentiu um calor diferente, que ela tinha certeza de que não vinha do sol, mas emanava de dentro dela mesma. Demorou um pouco até que percebesse que aquilo era alegria. Sorrindo perguntou:
- E o seu lance com o Mark, Yan?
- Não vai rolar. – respondeu ela confusa - Ele é amigo do meu irmão. Ia ser muito estranho para todo mundo.
- E o Richard ficaria desolado, coitadinho.- lamentou Bay descascando o esmalte preto.
- Eu adoro o Rich. De verdade. Mas eu não consigo me imaginar com ele, sabe. Nós simplesmente não temos nada em comum. Eu não estou fazendo isso por ele, ok? É que seria difícil para o Pete aceitar.
Katherine riu debochada e disse:
- Como se você desse a mínima pro que o seu irmão pensa.
- Não é por isso, Mayden.- Kath franziu a testa ao ouvir o uso do seu sobrenome. – Eu preciso pensar no Mark também. A amizade dele com meu irmão ficaria em jogo.
- Tudo bem, Sullivan. – respondeu a garota. Mas você sabe que o Rich ama você! Sempre amou, e você sempre ignorou isso.
- Por que me chamou de Sullivan?- desconversou Yan.
Kath não pestanejou:
- Por que me chamou de Mayden?
A amiga não respondeu. Só riu e balançou a cabeça. Parou de repente, intrigada, e indicou Bailey com um gesto. A garota estava deitada na grama olhando para o céu com ar de felicidade. Katherine cutucou-a com um graveto , o que a fez levantar de uma vez só:
- Ai! O que foi? – disse ela massageando as costelas.
- Exatamente o que eu ia te perguntar agora.
Bailey riu de um modo gozado e seu rosto assumiu uma forma sonhadora:
- Não é nada. – e riu de forma travessa.
- Claro que é. – disse Yancy fazendo cócegas em Bay – Ela conheceu um cara no trem, Kath. Indie, emo, punk, sei lá. Loser. – disse ela caçoando da amiga.
- Cala a boca e deixa que ela fale, Yan.- interrompeu Katherine – Ele não é gay, certo? – Bailey tinha uma queda natural por gays. O primeiro namoro dela terminou depois que encontraram o cara em uma posição constrangedora no vestiário da escola depois do jogo de pólo. Como Bailey mesma diria, talvez ela tenha sido um travesti na vida passada.
Yancy fez cara de surpresa e começou a rir loucamente. Bailey zangou-se e disse:
- Não vou falar. Vocês são duas vacas.
- Eu sei, Bay.- disse Kath- Mas nós não somos duas, somos três. Deixa de frescura e fala logo. Ele também é... – ela escolheu as palavras com cuidado –alternativo?
- E isso importa, Kath? A gente se viu no trem e houve uma conexão imediata. Eu não entendo dessas coisas de estar apaixonada, mas deve ser isso que eu estou sentindo. Me sinto uma idiota, outro dia chorei ouvindo A Thousand Miles no elevador!
Katherine percebeu que ela se importava de verdade dessa vez. E então, horrivelmente, imprevisivelmente, Yancy perguntou:
- Tem certeza de que ele não é gay? Sabe, isso é BEM nojento.
E mais uma vez ela demonstra ter a sensibilidade de um machado cego. Bailey fuzilou-a com os olhos.
- Não quero mais falar disso. – e virando-se para Katherine:
- Você não falou sobre suas férias ainda, Kath.
Kath sentiu seu sorriso escorregar como seiva.
- Já disse que foi como sempre. Nada de tão interessante. Quatro semanas trancada em casa com o Tommy e a Lisa ou perambulando pelas ruas de Liverpool sorrindo para os quatro motivos que me fazem feliz nesse mundo sujo.
Katherine sempre achou que havia nascido no melhor lugar do mundo. Antes de serem a maior sensação do rock’n roll ,se espalhando pelo mundo e conquistando qualquer pessoa com suas músicas absolutamente incríveis, os Beatles foram quatro jovens normais, que viviam na cidade de Liverpool, Inglaterra. Katherine nasceu no lugar certo, ou cresceu amando a coisa certa.
- Sério, May. Você vai acabar ficando doente. – alarmou Yancy.- Isso é um vício. Ouviu? Você é uma viciada.
-Viciada não. Aficcionada.- respondeu ela com indignação.- Os Beatles não são entorpecentes. Ou talvez sejam, mas eles curam minhas tristezas e me trazem alegria.
- Eram, Katherine, eram.- disse a outra impaciente- os Beatles acabaram! O Paul McCartney tá por aí, eu sei; mas precisa de uma bengala pra subir em um palco ok?
Bailey olhou para a amiga reprovando-a:
-Yancy, A Kath ama os caras desde criança. Ela sabe que a maioria está morta e que o resto já não toca mais, mas para ela isso não importa.- ralhou ela. – Seria o mesmo se eu te dissesse que você vai acabar morrendo por continuar comprando mais pares de sapatos que Imelda Marcos tem.
-Ok. – respondeu Yancy indiferente.- A gente acabou de chegar, não quero discutir.
Um silêncio constrangedor tomou conta das três e de repente Yancy comentou:
- O Pete disse que o Richard viajou para Londres, O Mark foi para algum lugar estranho na Escócia , mas não disse onde o Daniel passou as férias. Vocês sabem?
Katherine negou:
- Não, na verdade não vejo o Dan desde a festa de fim das aulas. – e enrubesceu.
- É, eu também não o vejo a muito tempo. – choramingou Bailey.
- Estranho, não é? Nós sempre viajamos juntos e dessa vez cada um foi para um canto diferente.
As amigas conversaram no parque até bem tarde. Foi preciso que o pai de Katherine as chamasse para almoçar. Como se alguma delas estivesse com fome em um momento como aquele. As garotas, inseparáveis, comeram quase nada e subiram para o quarto de Kath.
.Yancy agora aproximava-se de umas das paredes,e olhando para uma das fotos disse:
- Eu não tinha visto esse ainda, Kath.
- Você não teria visto mesmo. É novo.- respondeu a garota. - Ganhei do meu tio Jhonatan quando ele veio aqui.
- Aquele gordo barbudo que cheira a licor? - perguntou Bailey.
- Exatamente.- respondeu ela rindo.- Ele passou aqui nas férias.
Yancy examinava as fotos interessada. Ou fingindo interesse. Talvez estivesse tentando compensar o que havia dito pela manhã.
- Esse também é novo?
Katherine olhou para uma foto em que os quatro rapazes estavam sentados em degraus de pedra, no meio do nada. Na verdade não era novo. Daniel Worren comprara em uma feira de antiguidades para presentear Katherine em seus dezesseis anos. Era realmente raro.
-Não. O Danny me deu .- disse ela ainda pensando onde poderia estar o amigo. Por que ele não havia feito contato com nenhum deles durante as férias?
Ela ainda estava perdida em seu devaneio quando Bailey perguntou:
- O que nós vamos fazer agora, pessoas?
- Por que nós não vamos a algum lugar? - sugeriu Yan.
- Agora?- perguntou Bay.
- Talvez. Mas se a gente for mais tarde, os garotos também podem ir.- calculou Kath.
- É uma boa, Yan. - observou Bay.- Ás vezes você pensa em outra coisa que não seja o seu cabelo.
- É porque eu já decidi o que eu vou fazer com ele amanhã.- respondeu ela impaciente. - Vou ligar pra minha casa e avisar o Pete.- disse Yancy pegando o celular.
Bailey levantou-se e andou até o espelho.
- Eu estou cansada do meu cabelo, Kath.- disse ela passando a mão nas curtas mexas pretas.- Quero outra cor agora. Preto me deixa um pouco doentia, não deixa?
Katherine olhou para a amiga como se a avaliasse.
- É, deixa.- respondeu Bay sem esperar pela resposta.
- Eu gosto do seu cabelo. Só tenha um pouco de senso crítico.
- Senso Crítico é o nome do meu pai. - disse ela.- Mas se eu fizesse alguma coisa azul seria legal...
De repente as duas ouviram um grito de Yancy ao telefone:
- Ai, que tudo!- berrou ela histericamente.- A gente se encontra às sete em ponto ok? Mande um beijo aos garotos por mim. Ok. Você me entendeu, Pete. Tchau.
- Meu Deus! O que aconteceu?- perguntou Katherine.
- Nada.- respondeu Yancy pensativa. - Escutem: eu liguei pro tosco do meu irmão e os garotos estavam lá - incrível isso, nós saímos e eles chegam. Eles disseram que nos encontrariam no Beatles' Dinner.-ela olhou para Katherine atentamente.- Você não andou envenenando meu irmão não é?
- Eu? Nunca!- disse ela culpadamente- Mas não me incomoda a escolha do lugar.- The Beatles' Dinner era o restaurante preferido de Katherine desde os cinco anos de idade. Simplesmente porque tudo, desde a comida à decoração do lugar era inspirada em- adivinha o quê?
- A que horas, Yan?- perguntou Bay.
- Às sete em ponto, amor. - disse ela.- Nós temos o tempo exato de fazer as unhas das mãos e dos pés, as sobrancelhas e ajeitar o cabelo.- falou ela mais para si mesma que para as outras garotas. De repente virou-se para Katherine.- Linda, você me empresta aquele seu vestido que você nunca usa?
- Claro, amor.- respondeu Katherine rindo.E virando-se para Bailey – E eu comprei uma blusa que vai ficar perfeita em você, pensando bem.
- Sempre soube que eu tinha algum motivo pra te amar tanto, vadia.- disse Yancy dando-lhe um beijo na bochecha.- Eu tomo banho primeiro. Onde eu encontro uma toalha, May?
- Na última gaveta do armário do banheiro.- respondeu ela rindo.
- Valeu.- e correndo, foi para o banheiro.
Katherine abriu as portas do guarda-roupa , pensando no que usaria.
- Senti mesmo sua falta, Kath. – disse Bailey abraçando-a. - Você é muito... sabe como é.-disse ela.
Katherine correspondeu o abraço e disse:
- Eu também senti saudades. Eu não vivo sem vocês.
As duas sorriram. De repente, Yancy bradou de dentro do banheiro:
- KATHERINE MAYDEN!
Kath e Bailey correram até a porta exasperadas.
- Yan? Você está bem?- perguntou bay assustada.
- Estou! Mas porque diabos há um George Harrison assistindo ao meu banho?- gritou ela zangada.
Katherine, furiosa, gritou:
- Não enche Yancy!Eu não achei espaço no quarto ok? Tive que pregar alguns no banheiro! - e nervosa, se retirou.

